O Lula é meu malvado favorito.

O Lula é bandido.

Nada do que você ler aqui deve inocentá-lo. Ele se misturou aos piores políticos dos piores partidos. Ele sabia e, provavelmente, avalizou a realização de obras superfaturadas, desvios de recursos para campanhas políticas, benesses a empresários em troca de dinheiro. Ele é corrupto. Ele vendeu a alma. Eventualmente, tudo o que eu disse nem faça sentido, porque talvez ele próprio seja um dos piores políticos, o PT seja um dos piores partidos e nem alma ele tenha.

Mas não podemos ser seletivos. Essas práticas e essa grana suja para campanhas envolvem todos os caciques dos principais partidos que vemos no congresso, nas assembleias legislativas e nas câmaras das principais cidades brasileiras. Basicamente, todos os políticos eleitos para o executivo federal, estadual e municipal (das 100 principais cidades brasileiras, ao menos) estão envolvidos com as mesmas práticas. Não dá para confiar no PP, no PSDB, no DEM, no PMDB! Mas por que esse foco no Lula?

Primeiro: Lula é poderoso. Lula é um bandido que ainda pode ser presidente. Se ele puder concorrer, a chance de ele ganhar as eleições presidenciais é gigante. Então, é natural focar no Lula. Ele não é um zé ninguém. Faz sentido tanto a mídia dar mais ênfase ao seu julgamento e a suas ações, quanto seus opositores, já que ele ainda é uma realidade.

Segundo: Lula não tem foro. O Lula não é julgado pelo STF (apesar dessa bagunça toda de habeas corpus, voo às 19:00 e prisão em 2ª instância que vimos semana retrasada). Isso significa que seu processo anda mais rápido do que o de qualquer político que esteja sendo julgado pela suprema corte. Ele pode ser preso de verdade após menos de um ano de julgamento, diferente dos políticos julgados pelo STF. Por isso, chamamos o foro por prerrogativa de função (blá blá blá) de foro privilegiado. Porque sim! É um tremendo privilégio não ser julgado tão cedo e continuar solto. E por isso a Dilma mandou o tal papel para ele assinar quando ela era presidanta.

Terceiro: o foco é o Lula, mas ele não é um “perseguido”. Outros foram presos. Há políticos presos pela lava jato, sendo os mais famosos Eduardo Cunha, ex-presidente da câmara dos deputados, e Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro, ambos do PMDB. Portanto, quando dizem e sentimos que há uma perseguição ao Lula e ao PT, não é bem verdade…

Mas também é verdade!

Talvez pelo enfoque excessivo da mídia e dos opositores nas redes sociais ou da choradeira dos defensores, muitas vezes, temos a impressão de que Lula e o PT estão sendo covardemente atacados, enquanto outros corruptos seguem vivendo suas vidas, administrando estados, compondo bancadas, sendo membros de governos e presidindo países. Parte disso se deve aos dois primeiros fatores que citei, mas parte também se deve à proteção a outros corruptos.

Ainda escreverei sobre isso, mas, ano passado, o jornal O Globo posicionou-se claramente e iniciou forte campanha anti Temer. De uma hora pra outra, vendo que estaria no lado perdedor (o que nunca aconteceu na história desse país), o jornal esqueceu sua posição, cessou os ataques e reduziu o foco no enorme desemprego e na popularidade pífia do presidente.

Além disso, o dinheiro sujo rolou na campanha dos dois candidatos no segundo turno das últimas eleições presidenciais. E, se rolou na campanha da Dilma, rolou na campanha do Temer. E tudo ficou por isso mesmo. E da tucanada, cujos caciques todos têm foro privilegiado, quase não se fala ou, quando se fala, o ódio é infinitamente menor. Logo, sim, há perseguição.

E há perseguição porque, como eu já disse, o Lula é poderoso. A Dilma não tem foro privilegiado, foi presidente por cinco anos e, apesar de ser uma anta, claro que tem os seus podres, já que estava envolvida com todos os bandidos. Alguma coisa ela devia saber dos desvios, superfaturamentos etc. Mas ela não representa perigo. É carta fora do baralho.

Mas o Lula não. E sabe por que não? Porque, tendo sido ou não por puro populismo nojento, e tendo sido ou não apenas pela fantástica situação financeira brasileira e mundial (contas equilibradas, dólar fraco, China bombando, commodities em alta), ele fez muito pelos brasileiros mais pobres. Podemos falar o que quisermos, mas ele fez. Se não, não seria tão querido até hoje. Se você não enxerga isso, fique feliz: você não precisou ou usufruiu dessas medidas populistas. Mas não as negue. Chame-as de populismo nojento.

Ainda me pergunto ingenuamente se o Lula se misturou com essa bandidagem e chafurdou na lama apenas para conseguir concretizar essas medidas que melhoraram a vida dos mais pobres ou se ele é “uma pessoa horrível, mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”. Não que isso faça qualquer diferença para inocentá-lo. Aposto 98% na segunda opção, mas faço minha fezinha com 2% por uma única razão: nós não ouvimos falar de grandes valores para o Lula, como ouvimos, vimos, lemos e cheiramos os bilhões de reais do Cabral e outros por aí. Ele é bandido, mas a prova é um apartamento e um sítio, coisas que ele compraria com meia dúzia de palestras ou com algumas horas de programação da empresa do filho dele, essas sim, provas de sua bandidagem.

Uma teoria interessante que ouvi de influente pesquisador do Instituto Odair José de Pesquisas Sociais, um dos principais think tanks nacionais (seja lá o que for isso), é que, como todo político, Lula precisa compensar quem o elegeu e, como o PT é um partido popular, além de agradar os grandes financiadores de sua campanha, ele também precisa agradar o povo. Dessa maneira, ele não seria só um demônio ou só um anjinho, como propus no último parágrafo, mas um bandido que faria qualquer coisa pra permanecer no poder, não para enriquecer (como é comum), nem para ajudar os mais necessitados (como ele gosta de vender), mas para continuar poderoso, o que, consequentemente e independentemente das desastrosas consequências econômicas, acabaria sendo bom para os mais pobres, pelo menos no curto prazo.

Aonde quero chegar com isso tudo?

Nem sei mais. A princípio, seria meio que uma mini defesa do Lula, mostrando que ele vem sendo perseguido. O título seria até outro: “Lula, ladrão, roubou meu coração?!?!?!?” Mas, enquanto escrevia, fui me convencendo e ficando com um pouco de raiva. Mas não essa raiva boba, de quem acha que o Lula ser preso vai mudar o Brasil, ou que ele é o maior corrupto da história do país. Ele é um bandido, claro que é, mas nós, como sempre, estamos sendo manipulados pra cacete.

E eu imagino por que. Apesar de os donos do poder terem se dado bem com o Lula (teve mensalão, teve economia equilibrada nos primeiros anos, teve crescimento e, por pior que tenha sido para o país, teve desenvolvimentismo no final do seu mandato, com muita corrupção e gastos públicos para agradar essa galera que financia campanha), o governo Dilma mostrou a cara “autoritária” do PT e Lula perdeu a maior parte do apoio que tinha ao defendê-la e apoiá-la. Só restou, então, pelo seu potencial político, elegê-lo o maior bandido de toda a história do mundo, para que ele não repetisse esse “autoritarismo”.

Sabe por que coloquei o autoritarismo entre aspas? Porque, apesar de o PT ter sim um ranço antiliberal perigoso, parte desse “jeito autoritário” da Dilma era apenas incapacidade de conviver e respeitar esses bandidões com quem ela governava o país. Por mais que ela tenha ferrado a economia com sua imbecilidade e de seus assessores, ela só caiu por não conseguir dialogar com os políticos que a cercavam (por intransigência, inabilidade e algum senso ético), uma qualidade da presidanta, tenho que admitir, visto que a maior parte deles é composta pelo maiores criminosos do país.

Além disso, o Lula foi eleito o “bode”. “Se o povo focar nele, esquece da gente”. Por isso disse que somos manipulados pra cacete para vermos o Lula como o bandido mais perigoso da nação.

Só que o Lula também precisa continuar solto. Essa história de prender políticos não é muito legal pra classe. É um precedente perigoso demais. E ainda tem o Bolsonaro. Se, durante a campanha, ele estiver se distanciando e se mostrando mais intransigente do que a Dilma, o Michel assume, faz um acordo, junta o Lula, todo mundo. Aí é a saudosa dobradinha PT/PMDB de novo.

Existem excelentes razões para a perseguição e prisão do Lula. Mas outras, responsáveis pela maior parte desse ódio irracional, foram criadas apenas para manobrar a boiada e nos fazer esquecer que os corruptos mais perigosos do momento não são os que podem chegar ao poder. São os que já estão lá.

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O poder não corrompe. Só atrai os corrompidos e corrompíveis.

“O poder corrompe”. Você já ouviu isso. Eu não sei quem disse e não estou a fim de procurar. Sempre pareceu fazer sentido: você entrega poder para alguém e essa pessoa ficará à vontade, vai se sentir especial, vai achar que está acima dos demais e, cedo ou tarde, vai começar a ferrar a vida daqueles sobre quem detém poder. Parece natural. Somos humanos. Começaremos a achar que podemos fazer o que bem quisermos, afinal de contas, somos “detentores do poder” e, em pouco tempo, começaremos a usar esse poder em benefício próprio. Ou seja, corromper-nos-emos (pronto, corrompi-me e lancei logo uma mesóclise).

Mas será que é isso mesmo? Será que ninguém conseguiria resistir ao poder? Seria ele tão irresistível assim? Os exemplos do nosso dia a dia corroboram essa ideia, mas será que a relação de causa e efeito é essa? Não poderia ser ao contrário?

O poder atrai muita gente. Algumas, para influenciar a vida dos demais e fazer o que entendem por “bem”. Outras, a grande maioria, simplesmente pelo poder. “O poder pelo poder”. Pelo gosto de influenciar as pessoas, de se sentir superior, de poder mandar e desmandar, pelos ganhos monetários, pelas benesses e privilégios, pelas oportunidades de se beneficiar.

O poder não corrompe necessariamente. Muito mais comumente, ele atrai os corrompidos e os corrompíveis. Pessoas que querem se beneficiar de alguma maneira. E essas pessoas são a maioria dos que chegam ao poder. Primeiro, porque são a maioria dos que querem chegar ao poder. Até acho que a maioria das pessoas quer aquilo que entende como bem e justiça (mesmo que seja, simplesmente, cagar e andar para as escolhas alheias), mas a quantidade dessas que está disposta a brigar pelo poder é menor do que a minoria que não está nem aí para o bem, mas que tem sede de usufruir do poder.

E isso vira um ciclo, porque os corrompidos chegam ao poder, chamam e atraem outros da mesma laia. Quem é que vai querer se misturar com esse tipo a não ser alguém que tope vender a alma? E, ao mesmo tempo, afastam aqueles que querem o bem, porque estes, normalmente, não participarão do jogo sujo nem estarão dispostos a se sacrificar tanto para chegar aos postos de comando. Pra que ficariam se martirizando? Eles não têm tanto a ganhar individualmente, ao contrário dos que querem mergulhar na lama.

Outro ponto, muitas vezes negligenciado, é que, normalmente, quem quer o que entende por bem de verdade, não quer impor sua visão. Não quer tirar a liberdade das pessoas e forçar suas ideias. Mas o poder implica isso. Implica impor visões autoritariamente. Por mais que as pessoas gostem do modismo de liderança democrática, servidora, laissez-faire, na prática, chegar a um consenso em grupos maiores do que uma pessoa é muito difícil (em grupos de uma pessoa já é complicado…), e um pouco de autoritarismo contra a vontade da maioria será necessário. Isso também repele a galera que não vai se corromper, porque estes acham que isso já é uma forma de corrompimento.

Eu comecei com uma frase falsa de um desconhecido, mas terminarei com uma verdadeira de famoso autor: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. Isso é verdade, mas, provavelmente, Benjamin Parker não imaginou que os corrompidos e corrompíveis seriam os mais dispostos a assumi-las, por sua total capacidade de ignorá-las.

O individualismo nosso de cada dia

Individualismo é o mesmo que egoísmo?

Eu queria começar esse texto dizendo que não, mas o Google não deixou. Ele me disse que são sinônimos. Mas ele também disse que o individualismo pode ser outra coisa: “a valorização da autonomia individual na busca da liberdade”. Era mais nessa segunda definição que estava pensando quando imaginei se tratar de duas coisas diferentes. Mas por que queria falar sobre isso e por que fazia questão que fossem coisas diferentes?

Porque sinto que sou individualista e que estou ficando cada vez mais. Cada vez prezo mais minha autonomia e liberdade. Mas não me acho egoísta. Não penso só em mim. Não quero tudo pra mim. Só quero que meu tempo seja meu. Dá pra entender? Não abandonarei as pessoas que amo. Continuarei me sacrificando por elas e fazendo as suas vontades. Mas quando eu quiser! E eu quero com frequência, penso nelas com frequência, por isso não me acho egoísta, mas quero ter a liberdade de me sacrificar por elas quando eu bem entender, por isso me vejo cada vez mais individualista.

Não é tão fácil de entender, mas acho que os leitores do opiniudo dão conta.

E sinto e vejo que esse fenômeno não ocorre apenas comigo. Na verdade, esse é um movimento típico da modernidade, quando as pessoas começaram a deixar de ser uma parte de um todo, de uma sociedade holista, para se tornarem, cada uma delas, um todo individual. Isso começou (ou recomeçou, pois imagino que algumas sociedades urbanas avançadas da antiguidade possam ter experimentado algo semelhante) no final da Idade Média e continua se desenvolvendo até hoje.

Desde aquela época, as pessoas foram se tornando mais independentes, mais livres de amarras sociais e religiosas que determinavam o que deviam fazer, com quem deviam se relacionar e quais os seus papeis na coletividade. Hoje, com a internet e todos os avanços tecnológicos e logísticos, essa independência é maximizada. Tudo está ao alcance de alguns comandos no celular. Faço uma vídeo-chamada, compro meu almoço, contrato um médico, emito minha passagem, chamo meu táxi para o aeroporto e mando entregar minhas compras para o jantar. Tudo de maneira impessoal.

Enquanto pensava nesse texto, vi que, atualmente, a principal vítima desse individualismo são os filhos. Não os que nascem e são mimados ou negligenciados por pais incapazes de lhes darem atenção ou educação, mas os que não nascem. Muitos casais, hoje, optam por não ter filhos para não perderem essa liberdade individualista de que estou falando.

E prestem atenção, pelo individualismo, nós já nos separamos dos grandes grupos sociais (a tribo), da grande família (avós, tios e primos, antes tão próximos), da família menor (pais e irmãos, com quem só compartilhamos a casa por necessidade, mas não convivemos de verdade) e dos filhos (de que estamos abdicando). Adivinha quem é o próximo da fila?

Claro. O companheiro/a, que só resiste enquanto for um bom amigo que não dá trabalho com quem nos divertimos e ainda podemos copular (sem fins reprodutivos, claro). Só que o individualismo continuará avançando e também acabará com os relacionamentos estáveis. Primeiro foi a onda de divórcios, com a qual já estamos acostumados e que só não é maior porque alguns casais tiveram filhos (alguns exatamente para evitar a separação), mas, em breve, será a evitação (sim, é feio, mas o Google me garantiu que tava certo) das uniões estáveis duradouras. Por que não viver vários relacionamentos com pessoas legais, simultâneos ou não? Na hora que acabar aquele fogo dos primeiros meses e se cair na rotina, usufrui-se da liberdade e se muda de companheiro, ou se passa um tempo sozinho.

Esse texto é uma reflexão. Fruto de um carnaval divertidíssimo, cercado de amigos, de membros da grande família, regado a entorpecentes líquidos, junto da minha amada companheira e cheio de individualismo. Não há juízo de valor, tratando-se apenas de uma constatação e da verbalização de sentimentos. Se não gostou, dane-se. Eu sou livre e valorizo minha individualidade. Valorize a sua e vá fuxicar o insta de alguém.

Privilégios adquiridos

“Doze minutos do primeiro tempo. Um peladeiro cruza para um perna de pau, ele tenta dominar, a bola escapa, ele se desequilibra e cai; por sorte, ela sobra limpa para um jogador ruim que fecha o olho e chuta… A bola bate na trave, volta na cabeça do artilheiro perna de pau caído e é GOOOOOL! Do Fluminense!!! Os jogadores comemoram, os advogados entram em campo, apresentam um documento ao árbitro e é FIIIIIIM DE JOGO! O Fluminense vence e se garante na série B em 2020! Protestos dos jogadores adversários, mas não há do que reclamar, o documento é claro e assegura de maneira líquida e certa que a partida teria apenas treze minutos. É um direito adquirido pelo Fluzão.”

Eu ia escrever sobre a reforma da previdência. Ainda irei. Mas, enquanto refletia sobre o tema, peguei-me pensando nessa instituição basilar do estado democrático: o direito adquirido. Quantos não são os privilégios assegurados definitivamente graças a essa invenção? Achei que daria um texto legal. Então, lendo a amostra do livro “A história da riqueza do Brasil“, de Jorge Caldeira, conheci a primeira crítica a esse conceito desde que nasci. Segundo o autor, os direitos adquiridos foram uma maneira encontrada por grupos sociais privilegiados para assegurar seus privilégios. Recorria-se ao judiciário para garantir que o rei respeitaria e defenderia tais direitos. Segundo o autor, “na origem, o significado da expressão vinha a ser exatamente o contrário da igualdade. Marcava, antes, o privilégio particular que distinguia um indivíduo de outro”, levando o judiciário “a funcionar em Portugal como uma espécie de órgão emissor da moeda da diferença social”.

Talvez o tal direito adquirido tenha uma razão de ser, até porque sua origem deve ser bem anterior à história de Portugal, mas é inegável que ele também pode ser uma tremenda ferramenta de fundamentação e perpetuação de injustiças. Se uma lei estapafúrdia garante um privilégio injusto para alguém, não é razoável que fiquemos repetindo a ladainha “ah, mas é direito adquirido”, como se fosse um argumento sólido e incontestável.

Eu dei um exemplo ridículo aí no início (apesar de que, no final do ano que vem, a briga contra a série C pode realmente voltar a ser um problema para o maior clube do mundo), mas o direito adquirido realmente parece um “ficar de altos ao assumir a liderança”. Imagina ter direito a doze meses de férias remuneradas por ano, assegurado judicialmente? Imagina que maravilha se pudéssemos garantir nosso bem estar às custas dos outros simplesmente porque alguém decidiu em algum momento que aquilo é um direito nosso.

Porque isso acaba sendo esquecido, ou deixado de lado: nosso direito adquirido é uma obrigação entubada por alguém (ou, como de costume, por alguns, exemplificando o fenômeno de “mamação de teta” – rent seeking, em inglês – já explicado nesse texto).

Falarei mais do assunto ao falar da reforma da previdência, mas há casos de pessoas que passaram num concurso, trabalharam poucos meses e asseguraram uma pomposa aposentadoria integral, já que, na época em que se aposentaram, a regra ainda era essa. É evidente que se trata de uma injustiça absurda, paga por toda a sociedade, mas não podemos reclamar: “é um direito adquirido…”

Construir um país mais justo demandará sacrifícios. Normalmente, a conta é empurrada para os mais jovens, que não votam ainda, ou para os jovens adultos, que a pagarão no futuro. No entanto, se é para combater os privilégios, não se deveria pensar apenas em reduzi-los no futuro. Eles estão aí hoje! Na cara de todos. Podiam ser lícitos quando foram criados, mas nunca foram justos ou corretos. É nosso direito adquirido lutar e denunciar esses absurdos. E é nosso “dever obrigatório” pensar por dois segundos antes de simplesmente repetir a ladainha “mas é um direito adquirido…”, como se fosse um argumento aceitável.

Pra que ficar se martirizando?

Semana passada, o Brasil e, mais especificamente, o Rio de Janeiro, ganharam uma mártir. Marielle Franco. Uma vereadora de origem humilde, moradora de comunidade carente, que denunciou crimes e, muito provavelmente por isso, foi executada.

Eu, liberal, não compartilhava de boa parte das ideias de Marielle, socialista. No entanto, eu acredito que ela, como a maioria dos PSOListas, era uma pessoa que buscava o bem. Apesar de não compartilhar dos meios para alcançá-la, acredito que nós gostaríamos de uma sociedade mais justa e próspera, diferentemente da maioria dos políticos e dos altos funcionários públicos, muito mais preocupados com seu próprio bem estar.

É triste, mas, atualmente, isso foi colocado em segundo plano, sendo muito mais importante se você é contra ou a favor da legalização da maconha ou das cotas em faculdades públicas, do que se você é contra ou a favor da corrupção e da roubalheira. Mas esse não é o tema deste post.

A reflexão que proponho é: pra que se martirizar?

Pra que lutar por ideais nobres e bater de frente com pessoas mais poderosas? Pra que colocar seu bem estar e dos seus familiares em risco? Sua vida e a vida das pessoas que você ama? Ao que tudo indica, Marielle era uma jovem feliz e querida por muitos. Para que colocar tudo isso em risco?

É claro que a resposta não é fácil. Muitas vezes, nem há resposta, é algo mais forte do que a pessoa, uma paixão, uma vocação, algo que vem de dentro.

Você pode pensar, “nossa, como esse opiniúdo tá mais babaca do que o normal! As pessoas se sacrificam pelos seus ideais, ora! Porque é o certo a fazer!”

Ah, é? E quando foi que você se sacrificou pela sociedade? Pelo que era certo? Eu não estou perguntando quando você se sacrificou pelos seus familiares e amigos. Por eles, “é fácil” se jogar na frente de um ônibus. Mas e pelos outros? Por pessoas que você nem conhece e que, honestamente, não merecem e nem agradecerão seu sacrifício, se é que ficarão sabendo dele (em defesa dessa gente, eles também nem pediram nada pra ninguém, estão anestesiados, vivendo no inferno cotidiano).

O normal não é se sacrificar nem em nível micro. No dia a dia nas empresas, quantas pessoas não “engolem sapos” e abaixam a cabeça para coisas erradas, que prejudicam até pessoas próximas, apenas para manterem seus empregos ou conseguirem uma promoção? Ah, mas vivemos tempos difíceis… Então vamos pensar em algo ainda mais micro: uma briga qualquer no mercado ou no transporte público, em que um lado está claramente errado. Quantas pessoas se metem na discussão para defender quem está correto?

Pois é. E aí eu volto: pra que se martirizar?

Algumas pessoas não têm nada a perder. Alguém que já sofreu muito na mão de poderosos pode achar que a única coisa que resta é ir para o tudo ou nada e bater de frente, sacrificando o pouco que lhe restou. Outros podem não ter nada a perder mesmo (tirando toda a vida que lhe resta): não ter parentes, amigos, bens. Mas esse não é o caso da maioria. Sempre temos alguém que amamos. Sempre temos alguma coisa. Sempre temos alguém a quem queremos bem. Sempre temos momentos alegres que queremos preservar e repetir.

Das pessoas que lutaram por um ideal maior, quantas tiveram a oportunidade de vê-lo realizado? A maior parte luta, bate na parede, apanha, é torturada, vê parentes e amigos sofrerem, é morta, perde boas oportunidades de se alegrar em vida, morre e não vê seu sonho se concretizar. Pra quê?

Para pavimentar um caminho, alguns pensarão. Isso. Pavimentaram um caminho. Claro que foram úteis. Lutaram por seus ideais. Fortaleceram a causa e disseminaram seus valores. Mas ao custo de seu próprio sofrimento e das pessoas que amava. Vale a pena?

Peço desculpas pelo texto niilista, mas é foda ver o que aconteceu. E é foda lembrar que o sistema é implacável. E é foda ver que o mal está vencendo e está bem consolidado. E é foda ver que ele está vencendo no dia a dia, na política, no trem, na fila do pão, na rua, no mercado, na escada rolante.

E é foda ver que tem gente se martirizando por pessoas que não mexem um dedo para ajudar se tiverem que sacrificar um fio de cabelo. Gente boa se martirizando por gente que só se martiriza por si mesma.

0,0000006 Bitcoin sobre Bitcoins

Eu pensei em escrever este texto no ano retrasado, quando o Bitcoin ainda estava uns R$ 600. Mas achei o assunto chato.

Aí, pensei em escrever quando a moeda estava R$ 2 mil. Mas achei que não tinha nada muito legal pra falar.

Quando a moeda estava R$ 4 mil e eu comprei alguns centavos dela, eu tinha algo legal pra falar (razão pela qual comprei) e alguns amigos insistiram, mas achei o assunto muito terreno e banal, bobo para blog tão inteligente e filosófico.

Quando, no final de 2017, a moeda estava valendo R$ 70 mil, eu estava sem escrever há mais de um mês, não tinha nada novo muito legal pra falar e estava com vontade de responder às principais questões que nós, mortais, estávamos fazendo sobre Bitcoin, comecei a escrever esse texto. Mas aí parei.

Agora, quando o Bitcoin recuperou R$ 15 mil dos quase R$ 50 mil que baixou em relação aos R$ 70 mil que falei aí no último parágrafo, resolvi continuá-lo. Espero conseguir terminar, se não esse texto será apenas a história de quando quis escrever sobre Bitcoin.

O que é esse treco?

Eu não sou especialista em Bitcoins, Blockchain ou em qualquer outra coisa, mas sou opiniudo. Se você quiser saber de verdade o que são essas coisas, procure no Google, tem um bilhão de textos. Aqui, darei uma pincelada no conceito e, humildemente, responderei apenas a todas as principais perguntas de quem já tem alguma ideia do que seja esse negócio.

Bitcoin é uma moeda digital. Imagine que você tenha um arquivo Word em branco no seu computador que você possa trocar por bens e serviços. Isso seria uma moeda digital. Uma loucura, né? Por que alguém pagaria R$ 35 mil para ter um arquivo num computador?

A resposta é simples: pela mesma razão louca que alguém trocaria um carro por 350 notinhas verdes de papel com um desenho de um peixe. Porque outras pessoas também fazem isso! E porque outras pessoas aceitariam essas notinhas por muitos e muitos quilos de feijão!

Isso é uma moeda fiduciária, como as atuais. Não existe lastro (ao contrário do que um bando de “especialistas” da tv ficam falando) para o Real ou o Dólar. Existe apenas a confiança de que essas moedas serão aceitas por outras pessoas.

Cisne Negro

Li a primeira vez sobre Bitcoins em 2014, mas começava minha recuperação mental de uma grande porrada no mercado financeiro e só queria ouvir falar em renda fixa. Com o tempo, recuperei-me (?) do trauma e continuei me informando sobre Bitcoins, mas o grande divisor de águas foi ler o livro Cisne Negro, de Nassim Taleb (algo que deveria ter feito uns cinco anos antes, por indicação de um amigo).

Para poupar seu tempo, vou explicar em poucas palavras a ideia do livro. Fenômenos imprevisíveis determinam o rumo de todas as coisas. Não é o cotidiano repetitivo, que pode ser razoavelmente bem previsto, que vai definir a história, mas grandes fenômenos imprevisíveis. Eles são os cisnes negros, que podem ser negativos, mas também, positivos. Tente expor-se a esses “aleatórios positivos”. Como? Invista um pouquinho (tempo, dinheiro, saco, paciência) em coisas que nem você, nem ninguém sabe qual a chance de dar certo. Se der errado, você terá perdido um pouquinho. Se der certo… bem, nesse caso, é imprevisível.

Para completar, bem na época que terminei de ler o livro, bebi um chopp com um amigo que conhece muito do assunto (e conhece mesmo, dá aula e tudo, sabe os poucos aspectos técnicos dos quais não quero falar e todos os outros dos quais não tenho ideia). Foi o empurrãozinho que faltava (e, mesmo assim, ainda levei uns quatro meses pra comprar meus primeiros centavos).

Vale a pena investir em Bitcoins?

Bitcoin já foi um cisne negro. Hoje em dia, diria que ele é um cisne cinza. De quando escrevi as duas primeiras frases do parágrafo até o momento em que estou terminando o texto, ele deu uma reescurecida. Ficou mais barato. Voltou a ser uma oportunidade um pouco melhor. Mas não é mais o cisne negro que já foi. Pelo menos, para a maioria das pessoas.

Por que digo isso?

Bom, o Bitcoin já valeu centavos de Real e, hoje, vale R$ 35 mil. Por mais imprevisível que seja o valor a que ele possa chegar, temos de convir que ele já está bem mais perto desse valor imprevisível do que antes. Ou seja, se esse valor for R$ 3,5 milhões, estamos falando de uma multiplicação por 100. Se alguém investir R$ 1 mil, ficará com R$ 100 mil. Impressionante? Com certeza, mas nada como quem investiu R$ 1 mil quando ele estava R$ 35 e, hoje, tem R$ 1 milhão e que, se a moeda chegar a R$ 3,5 milhões, terá R$ 100 milhões.

E por que ele é cinza para a maioria das pessoas? Porque, como eu falei, o risco a se assumir com cisnes negros deve ser baixo. Para os mortais, isso seria quantias bem módicas mesmo, como falei no parágrafo anterior. Mas, para outras pessoas, isso pode ser R$ 1 milhão, R$ 10 milhões, R$ 20 milhões. Nesses casos, uma multiplicação por 100 poderia representar a entrada na lista de bilionários da Forbes…

Portanto, vale a pena investir em Bitcoins? Entendo que sim, um pouquinho, mas sem expectativas de grandes porradas (o que contradiz minhas próprias informações sobre a total imprevisibilidade do seu valor futuro).

Mas existem centenas de outras criptomoedas…

Não me estenderei, mas sim, existem muitas outras moedas tipo o Bitcoin. Algumas com valores próximos aos que ele tinha quando “jovem”. Se tiver interesse, informe-se e diversifique o pouquinho que você vai investir. Vai que uma dá uma porrada?

Mas essas criptomoedas não são bolhas?

Sim, claro que são! Mas o que não se torna bolha hoje em dia? É só o preço de alguma coisa começar a subir para milhões de pessoas com um dinheirinho guardado e vontade de lucrar começar a comprar para especular. Ainda mais numa época de juros internacionais muito baixos e muita liquidez.

Com o Bitcoin e outras moedas digitais não seria diferente. Minha opiniúda opinião é que entre 80% a 97% do preço do Bitcoin devam-se a pura especulação.

Mas e o restante?

O restante vem de seu uso mesmo.

Mas você nunca viu ninguém usando Bitcoins para comprar nada? Nem nunca viu ninguém aceitando Bitcoins? Pois é. Mas, pelo que li, ele é uma excelente maneira de comprar drogas, armas e fazer remessas internacionais não declaradas, porque as partes ficam anônimas. Diferentemente de uma transferência bancária, o Bitcoin é enviado para um endereço online. E pronto. Ninguém sabe nem viu quem é o dono do endereço de onde saiu e de onde chegou.

Mas não precisa ser assim pra sempre. Aos poucos, ele pode começar a ser aceito para mais compras de bens e serviços, até que deixe de ser uma bolha e passe a ser uma moeda como outra qualquer.

E por que tão valorizada?

Pela escassez. Ele não é uma moeda que pode ficar sendo criada à vontade, como o Real, o Dólar ou o Bolívar venezuelano. De acordo com a regra do Bitcoin, o total de moedas que existirão são 22 milhões. E pronto.

E o que ela tem de ruim?

Além de ainda não ser aceita em quase lugar nenhum, existe um limitador para o Bitcoin: ele é velho!

Claro que ele não é velho de verdade. Foi criado em 2009, salvo engano. Mas a tecnologia avança e muda muito rapidamente. E o Bitcoin parece ter ficado pra trás. Seus custos de transação e processamento são altos, tanto com relação ao tempo, quanto à necessidade de processamento de dados mesmo.

Para sair de uma conta para a outra, ele requer que vários computadores espalhados pelo mundo, que fazem parte da rede, trabalhem. Mas ele requer que eles trabalhem muito, tem limitações de transações por segundo e grande variação do tempo de transferência.

Isso faz com que, se eu quiser usar centésimos de centavos de Bitcoin para comprar um picolé, tenha que pagar até uma centena de picolés e esperar até algumas horas para que o dinheiro caia na conta do vendedor e ele me entregue o produto. Pouco prático, né?

Mas então, para que vai servir isso, se ele não mudar?

O Bitcoin, pela escassez, pode acabar se tornando uma espécie de ouro digital. Um bem escasso que servirá como reserva e protegerá seus detentores de grandes inflações das poderosas e respeitadas moedas nacionais.

E como fazer para comprar e guardar?

Para comprar, o processo é parecido com o de um título público do tesouro direto ou uma ação: abre-se uma conta numa corretora de Bitcoins, transferem-se reais para a conta da corretora, o saldo aparecerá na tela do seu computador ao fazer o login e você comprará as moedinhas que quiser.

Depois disso, você poderá guardá-las de várias maneiras:

  1. a mais simples e arriscada é deixá-los na sua conta na corretora, que poderá sofrer um ataque cibernético ou, simplesmente, roubar suas moedinhas;
  2. outra maneira é criar uma carteira digital e transferir os Bitcoins da conta da corretora para ela. Como eles ainda estarão online, poderão desaparecer como disse aí em cima;
  3. por fim, você pode salvá-los off line, num pen drive, computador, HD externo… Para isso, terá que baixar um programa no computador, celular, tablet… e transferir as moedas para esse hardware onde você instalou o programa. Dessa forma, estará mais seguro quanto a possíveis roubos (desde que não vá andar na rua de alguma cidade brasileira com esse celular onde seus Bitcoins foram salvos, nada muito diferente de como você protege suas barras de ouro que valem mais do que dinheiro).

Para comprar outras moedas, provavelmente precisará abrir uma conta numa corretora estrangeira, transferir seus Bitcoins comprados na corretora brasileira para sua conta na corretora gringa e os utilizar para comprar as moedas que quiser. Ainda não sei de corretoras brasileiras que vendam outras moedas, mas estou afastado disso faz um tempo.

Peço desculpas pelo tema tão rasteiro. Em breve, caso meus centavos de Bitcoin não estejam valendo muitos milhões e eu esteja ocupado passeando por aí, eu volto com algo mais ethereum.

MBA em secagem de gelo

“Putz, eu tenho mais quatro dias pra fazer isso, mas só preciso de cinco horas. Eu sei que esse treco é importante, mas se eu entregar isso logo, meu chefe vai inventar um bando de besteira desnecessária para eu fazer, melhor ficar aqui enrolando…”

Quem nunca passou por isso no trabalho?

Bom, eu nunca, só pela primeira parte. Aí terminava e entregava logo a baboseira, ficava enrolando, saía mais cedo, chegava mais tarde… Sou funcionário público e essa era minha realidade até pouco tempo (sim, ela mudou! mas isso não te interessa!). Mas e aqueles que, por qualquer razão, não têm essa liberdade? Aqueles cujos chefes não podem ou não querem ver à toa, pois teriam que justificar para o chefe deles a ociosidade da equipe? Um saco né?

Pois é, as organizações e os gestores deveriam ficar atentos a isso. É óbvio que o ideal racional empresarial é que não haja essa folga, que o aproveitamento dos recursos seja maximizado. Mas sejamos honestos, não é só no serviço público em que há essa sobra de vez em quando, né? Aí, dá-lhe enrolação ou criação de tarefas para enxugar gelo.

Isso me incomoda. Eu sou apaixonado por eficiência e acho que gestores e empresas também deveriam ser. Isso sobre o que estou escrevendo é uma tremenda oportunidade. Se alguém tem tempo de sobra para fazer algo importante, mas sabe que precisará ficar enrolando ou fazendo algo idiota caso entregue o trabalho que realmente importa antes do prazo, é muito provável que vá retardar ao máximo a entrega. Não se sentirá “motivado” pelo prazo fungando no pescoço, nem quererá enxugar gelo.

Essa opinião não solicitada sobre um assunto diverso é para propor aos administradores que tentem mudar sua forma de pensar. O quanto antes aquilo for entregue, melhor. Então, quando houver folga real (e não uma fila de trabalhos importantes), libere seus funcionários assim que o trabalho estiver finalizado! Combine com eles: “quando você terminar, pode ir embora, quando aparecer algo importante eu te chamo”.

E se não aparecer? Pois é, leitores que receberiam a folga, só agora pensei nisso… Esqueçam o que escrevi! Apaguem tudo! Enxugar gelo nem é tão chato assim, vai.

Faltam nove meses

Nova atualização nesse calendário boboca para o golpe militar! Faltam apenas nove meses.

“Mas o que foi que ocorreu de novo?”

Jura? Você não tava prestando atenção?

Aprovaram a intervenção federal no governo do estado do Rio, especificamente na área de segurança pública. E deram o poder pra quem? Pra Polícia Federal? Pro Ministério da Justiça? Não! Claro que não! Para um militar!

Atenção! Não estou fazendo qualquer juízo de valor! Dizendo se vai ser bom ou ruim. Dizendo se a intervenção era necessária ou não. Estou apenas falando que estamos mais próximos do golpe militar! A intervenção federal no Rio, querido leitor, aproxima-nos da intervenção militar no governo federal por duas razões.

Primeiramente, os militares podem gostar. Podem ver que é legal cuidar da segurança dos civis. Dar ordens em civis. Podem lembrar que são os salvadores da pátria, muito mais corretos do que esses democratas corruptos. Podem pensar: “por que devolvemos o poder pra eles, se eles só fizeram besteira?” Podem achar que fizeram um bom trabalho e achar que podem fazer bons trabalhos em outras áreas. Podem acabar fazendo um bom trabalho mesmo e ter a certeza de que farão bons trabalhos em outras áreas.

E aqui, surge a segunda razão: o povo pode gostar e querer mais. Pode começar a apoiar. A pedir mais intervenções. “Poxa, deu certo no Rio! Queremos vocês aqui no Espírito Santo, porque os bandidos estão fugindo pra cá!” “Poxa, deu certo na segurança, queremos vocês cuidando da saúde também!” Cresce o apoio aos militares. E uma coisa leva a outra.

Por isso, amiguinho, andamos mais um pouquinho. Agora são só nove meses.

Ah, e não se esqueça, com a carta Lula quase fora do baralho, o político carismático militarista do primeiro texto tá logo ali, liderando as pesquisas de primeiro turno.

 

Falta um ano

Há menos de um mês, escrevi que no meu “calendário para o golpe militar no Brasil” faltava apenas um ano e três meses. Pois é, agora só falta um ano. A probabilidade já aumentou. Isso porque um jornaleco de um país subdesenvolvido de primeiro mundo, que não goza de 1% da credibilidade deste conceituado blog, mas que, em função do nível cultural da pequena nação onde é publicado, possui grande influência, acabou de prever mais ou menos a mesma coisa: se a legitimidade do governo brasileiro continuar ridiculamente baixa e os escândalos continuarem aparecendo, vai dar merda!

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Pô, mas só isso já fez o tempo passar três meses nesse calendário idiota? Sem dúvida nenhuma! A reportagem teve grande repercussão aqui neste país em desenvolvimento de terceiro mundo, onde as opiniões de qualquer um sobre você valem mais do que sua própria autoimagem. E o jornaleco gringo ainda fez a pergunta provocativa de “por que Temer continua presidente se a popularidade dele está próxima de zero (igual a zero entre os menores de 24 anos)”.

Isso parece detalhe, mas milico lê jornal. Se até lá fora já estão falando abertamente dessa possibilidade como algo plausível, ela é ou se torna realmente plausível. A população vai sendo preparada e os atores vão ganhando motivação. É a profecia autorrealizável.

Falta um ano.

Por mais pedestres nas organizações

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Eu já disse mil vezes que trabalho pro governo. Sempre tenho que repetir isso, porque, numa hora, estou falando mal de funcionários públicos que ganham demais – aí pode parecer que tenho raiva da categoria; em outra, estou sendo “insensível” com empreendedores que faliram durante a crise – aí podem dizer que omiti minha estável posição no serviço público, que me permite ter “tranquilidade” e responsabilizar parcialmente empresários por seus fracassos num momento tão difícil. Agora, preciso fazer essa ressalva porque falarei dos funcionários de qualquer organização, principalmente das privadas – e os que trabalham em empresas poderão pensar que omiti propositalmente que trabalho em órgão público e que só escrevo o que lerão porque não tenho a menor ideia da realidade empresarial.

Feito esse chatíssimo disclaimer, posso começar a falar do que quero: você precisa ter mais autoestima no trabalho. É claro, você precisa ter mais autoestima em tudo. Autoestima é o bicho. É bom demais. Vicia. É tipo pó (estou falando de garam massala). Você não precisa ser “prepotente, arrogante e orgulhoso” como uma professora um dia me definiu, mas quanto mais autoestima tiver, melhor (sei lá se isso é verdade, mas serve pro argumento, deixa essa discussão pra outra hora). Agora, porém, falarei apenas da autoestima no ambiente de trabalho.

Conversando com várias pessoas, vejo o quanto se omitem e deixam passar oportunidades por medo. “Meu chefe não vai gostar de ouvir isso”, “Isso não vai dar em nada”, “Não vou conseguir fazer”, “Vou ser demitido”… Bullshit! Você não sabe! Você não tentou!

Um dia, me disseram que “mais vale um dia no vermelho do que uma vida no amarelo”. Infelizmente, não consigo viver seguindo plenamente essa recomendação, mas me esforço! E recomendo o mesmo a vocês, principalmente aos mais jovens: arrisquem-se no trabalho! Principalmente quando têm menos a perder (daí o foco nos mais jovens, com menos de 80 anos). Pensem em alternativas, em novos projetos, participem, deem sugestões! Se estiverem insatisfeitos, reclamem, tentem mudar, mandem currículos. Inovem! Tomando a liberdade de “clichezar”, “pensem fora da caixa!” Apenas correndo mais riscos, será possível alçar voos mais altos e interessantes.

É claro, como falei lá no início, é fácil falar quando se goza de estabilidade. É muito mais fácil arriscar estando num porto seguro, mas não se enganem, também não é tão fácil como imaginam. Acreditem se quiser: as recompensas são menores (não há bônus ou grandes promoções); as resistências e aversão a risco são ainda maiores; e a chance de voar mais alto diminui, já que a cultura do serviço público tem uma tendência a perpetuar-se muito forte.

Não estou dizendo pra ninguém sair brigando com todo mundo. É necessário ser inteligente, sondar o ambiente, perguntar opiniões, envolver as pessoas, principalmente as chefias. Mas não deixem de tentar. Tenham autoestima. Acreditem em vocês e acreditem que é possível. E não se esqueçam, há margem de segurança, o bonequinho pisca antes de ficar vermelho. Mas só por um tempinho. Não deixe ele ficar piscando para sempre.